Chilaze (Foto: Divulgação)

Atelier Chilaze completa 73 anos de exuberância carioca

São 73 anos de percurso. Situado no centro do Rio, o Atelier Chilaze tem muita história para contar. Sua trajetória se reflete no design das maxi bijoux em resina, com acabamentos únicos em corda e outros materiais sustentáveis e nas bolsas em palha e bambu, produzidas de forma consciente. A empresa, que começou no pós-guerra com o imigrante sírio Salim Chilaze, agora é tocada pela terceira geração do clã, as irmãs Claudia e Sandra, num negócio de família que deu muito certo. O amor pelo business, típico das culturas que vêm do Oriente Médio, foi passando de pai para filho. Agora, além do feeling natural, do faro para os negócios na veia, a grife se ampara numa eficiente gestão com a presença de mulheres fortes no comando, com produção anual, atualmente, de sete toneladas de resina por ano. E, como se não bastasse, ainda engloba uma boa dose de carioquice no DNA, tanto na forma de enxergar a moda quanto no aspecto exuberante, solar e colorido das coleções. A brand segue firme na rota aberta por grifes de acessórios de alma carioca como Zau, Marco Sabino e Jane & Sérgio, suprassumo nos anos 1980. 

É coisa de novela e também daria um filme. Após um desentendimento entre irmãos – daqueles em que depois tudo acaba bem –, Salim Chilaze imigrou para o Brasil no início do século 20, vindo de Alepo, na Síria. Se estabeleceu em Manaus, onde vigorava o ciclo da borracha. Montou comércio. Se embrenhava pela mata, fazia negócio com os produtores locais, pegou malária, foi curado pelos índios. A doença foi a gota d’água, decidiu mudar de ares. Foi para Salvador, pôs um armarinho de pé, do tipo que vende tudo. Dos três irmãos que permaneceram na Síria, convocou dois para virem ao Brasil ajudar-lhe no trabalho. Foi sucesso. Dali, deixou um deles cuidando da mercearia original e acabou parando com o outro na capital, o Rio, onde montaria mais tarde, em 1946, a loja que viria a se tornar o Atelier Chilaze décadas depois. Foi nessas andanças que acabou conhecendo a esposa da vida inteira, Munira, de ascendência armênia. Casaram e tiveram seis filhos, entre eles Anis, o segundo mais velho, hoje com 90 anos e ainda dando expediente na loja-estúdio, pai das meninas Claudia e Sandra, e também de Flávio, o caçula.

Anis entrou para o ramo muito novo. Era bom de contas, queria fazer engenharia. O pai preferiu outra coisa: percebeu que ele podia se desenvolver no métier da família, que na época já morava num casarão no coração de  Ipanema, perto da Praça General Osório. “Até hoje calculo a quantidade das grosas de cabeça”, revela. Meio a contragosto no início, ele ingressou na loja aos 17 anos, em 1947. Nessa época, a Irmãos Chilaze vendia roupa de cama, mesa e banho e bijuterias finas. Entre 1948 e 1950, passou a importar pérolas e cristais da Tchecoslováquia, navalhas e canivetes da Alemanha, trenas, colchetes de pressão e bolas de pingue-pongue do Japão. Vendiam de Canetas Parker a agulhas. Aos poucos, o segmento de acessórios foi se firmando. A empresa acabaria mais tarde mudando o nome para Chilaze Bijuterias Ltda, enquanto Anis percebia que tinha talento para desenvolver bijoux. Era antenadíssimo. Passou a fornecer para lojas de departamentos como Sloper, Mesbla, Lojas Americanas, além da clientela de varejo.  

No anos 1960, o setor explodiu. A loja virou atacado. Era a época em que Anis, ao lado dos irmãos, já estava na direção do negócio. Ele havia casado com Maria Elisa Nascimento e a família morava na Copacabana bossa nova, bem no olho do furacão,  acompanhando de perto a revolução de costumes. Assim, não foi surpresa, no auge da cultura hippie, a Chilaze ganhar rios de dinheiro com o cordão com o pingente do Yellow Smiley esmaltado, um dos símbolos gráficos da contracultura. Já na década seguinte, num insight, Anis mandaria desenvolver cordões de ouro com opções de 103 nomes. Virou febre entre as grávidas e mães que queriam levar no pescoço a alcunha do rebento. Só as Lojas Americanas compraram, na época, 51 mil peças. Intuitivo, o empresário seguia elucubrando peças e surpreendendo fornecedores. Anos depois, foi a vez de encomendar broches de frutas coloridas em massinha de poliéster de um fabricante do Paraná. Mandou desenvolver várias delas e o maior hit foi justamente aquele que foi mais questionado pela fábrica: uma maçã dentada. No total, mais de 86 mil peças vendidas, o que abriu espaço para a linha de brochinhos infantis.    

Chilaze (Foto: Divulgação)

Sandra Chilaze se recorda desse período de efervescência criativa do pai: “Aos sábados, pedíamos para ir à loja, que ficava na Rua da Alfândega, epicentro do comércio popular do Rio. Crianças, gostávamos de bater a caixa registradora, uma daquelas bem antigas, bem cenográficas”. Hoje, à frente da administração, ela recorda quando abriram a segunda loja na rua vizinha, Senhor dos Passos. “Foi quando minha filha nasceu, em 1995. Aos poucos, anos antes, meus tios foram saindo do negócio. Ficamos nós. A Chilaze, porém, seguiu adiante e estamos aqui, com aquela vontade de crescer cada vez mais nesse milênio, sempre procurando trazer autoestima às nossas clientes com peças que as façam se sentir poderosas. Nossa meta é crescer sem estresse, num slow growing”, afirma Sandra, que antes atuou no mercado corporativo, na Petrobrás e na Andersen Company.

Por sua vez, Claudia Chilaze, que estudou comunicação, logo caiu no estilo. Foi compradora e desenvolvedora de acessórios na rede carioca Villa Borghese antes de ingressar no negócio familiar, onde cuida da coordenação de criação. Entrou no final dos anos 1990 investindo em linhas de montagem. “Ia para aqueles prédios de atacado da 25 de Março, no comércio popular de São Paulo, para escolher componentes. Comecei a inventar, esboçar, desenhar. Passei a respirar moda, ver desfiles, garimpar na internet, a pesquisar. Sou autodidata. Nunca copio e não gosto quando me copiem”, entrega. 

Chilaze (Foto: Divulgação)

Quando um fornecedor de contas em resina parou de vender atacado, a Chilaze resolver ampliar sua potência criativa e desenvolver as peças próprias. Foi quando imergiu na criação em resina. Deu liga. Em 2013, a cool hunter Ana Luiza Pessoa de Queiroz adentrou a loja-atelier cercada de sua equipe de desenvolvedoras francesas para  encomendar uma linha de pulseiras. Claudia não titubeou. Sem pegar o seu contato, desenvolveu um mostruário de 15 unidades, mas a consultora não apareceu. Fez melhor. Voltou à loja meses depois com a proposta de a brand criar uma linha para o evento “Le Brésil Rive Gauche”, promovido pela mais antiga loja de departamentos francesa, Le Bon Marché, que apresentou aos europeus 120 marcas brasileiras à véspera da Copa do Mundo 2014. O Atelier Chilaze ganhou corner ao lado de gente graúda como Osklen, Isabela Capeto, Lenny Niemeyer, Adriana Barra, Melissa, Phebo e Granado numa abertura que contou até com show de Gilberto Gil. Por fim, o magazin tirou um pedido de mais de 1.000 peças, entre colares e pulseiras. A marca decolou. 

Hoje, além das peças em resina, mescladas com matérias-primas sustentáveis que incluem cordas exclusivas à base de pet, linhas em algodão, sisal e o aproveitamento dos rolos de papel kraft proveniente do descarte do papel higiênico, o Atelier Chilaze ainda oferece linhas de bags em cestaria e palha natural desenvolvidas por cooperativas do Ceará, além de bolsas de bambu com tingimento natural.     

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