George Paliani é chefe de Crescimento e Relações Públicas da CoinsPaid. (Foto: Divulgação)

Artigo: ‘O momento cripto-multiplicador da América Latina’

No ano passado, os países latino-americanos enviaram US $25 bilhões em criptomoedas e receberam US $24 bilhões, números que representam entre 5% e 9% de todas as criptomoedas do mundo. O Brasil é de longe o maior usuário, respondendo por US $9 bilhões em transações recebidas, seguido pela Venezuela, Argentina e Colômbia, com cerca de US $3 bilhões cada. Mas a verdadeira história pode ser vista atrás desses números. As criptomoedas representam não apenas um novo momento financeiro na América Latina, mas uma fonte de oportunidade e crescimento. Isso se deve a algumas particularidades da região, que tornam a moeda uma alternativa tão transformadora.

Em primeiro lugar, em uma região atormentada pela inflação e depreciação de suas respectivas moedas, a criptografia representa uma maneira confiável e viável de proteger a poupança. Embora os excessos da década de 1990 tenham sido felizmente evitados, as taxas de inflação regionais variaram entre 4% e 7%, isso durante a última década. Portanto, diante dessas taxas oficiais, a realidade é que a ‘cesta’ de mercadorias a partir da qual elas são calculadas está em constante mudança (e, não necessariamente, pode ser comparável entre os países). Até a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe admite que tais dados tendem a subestimar o verdadeiro impacto da inflação.

Logo, tais tendências são mais difíceis de se esconder nos mercados de câmbio, notoriamente voláteis; em 2019, o peso argentino perdeu quase 60% em relação ao dólar, enquanto o peso chileno caiu 12,4% em relação à moeda americana em apenas quatro semanas (18 de outubro a 15 de novembro), após protestos sobre mudanças na Constituição. A situação só foi agravada pela pandemia do novo coronavírus; entre 2 de março e 28 de maio de 2020, por exemplo, o real perdeu quase 16% de seu valor em relação ao dólar. Desta forma, esta incerteza não apenas corrói o valor de cada moeda, mas torna o planejamento de longo prazo e a tomada de decisões virtualmente impossíveis.

O segundo aspecto que favorece a disseminação da criptografia é o custo e a inacessibilidade das alternativas bancárias convencionais. O setor bancário latino-americano é caracterizado por níveis de regulamentação e taxas de transação igualmente onerosas. Uma pesquisa do Bank for International Settlements descreveu as taxas bancárias da América Latina cobradas dos usuários finais como “as mais altas entre EMEs (economias de mercado emergentes)”. Por exemplo, em 2018 as taxas totais cobradas de consumidores e comerciantes representaram 4% do PIB da região; isso em comparação aos 3% para a Ásia e menos de 2% para os bancos da EMEA. Da mesma forma, as tarifas cobradas para transações de consumo doméstico alcançaram 0,7% do PIB na região, em comparação com apenas 0,2% na Ásia-Pacífico.

Um monopólio efetivo explica em parte toda essa situação. No Brasil, 80% dos depósitos estão concentrados nos cinco principais bancos do país, enquanto outros mercados são alarmantemente mal atendidos – no México, há um total de 51 bancos, na Colômbia apenas 25; números para países com populações de 127 milhões e 51 milhões, respectivamente. Ou seja, um ambiente improvável e incapaz de gerar serviços alternativos ou acessíveis para uma nova geração de consumidores ou empresas que buscam crescer no comércio internacional, por exemplo.

A terceira particularidade é a cultura da América Latina e os pagamentos de dependência do exterior. Apesar da atual crise global, os fluxos de remessas (principalmente dos EUA) permaneceram estáveis e até cresceram em alguns países: em junho do ano passado, a República Dominicana recebia 26% a mais de remessas do que em junho de 2019, ao mesmo tempo que Honduras também registrou uma queda de 15% no ano, equivalente a um aumento anual no mesmo período, enquanto as remessas de El Salvador aumentaram 10%. Já as receitas de remessas da Guatemala atingiram recordes históricos em julho e agosto do ano passado e, no México, as receitas de remessas alcançaram a impressionante marca de US $ 3,57 bilhões em agosto de 2020 (o segundo maior nível já registrado para um único mês e 5% acima do mesmo período do ano anterior) . Em toda a região, de acordo com estimativas do Banco Mundial, a receita das remessas representa quase 2% do PIB total. Diante disso, o impacto – não apenas da incerteza da taxa de câmbio – mas dos custos de transação é particularmente proeminente na região. Um problema que foi agravado pela retirada de alguns serviços de transferência – incluindo nomes como Western Union e Crédit Mutuel.

Todas essas realidades têm se combinado para tornar a criptografia uma alternativa cada vez mais atraente – ou complementar – opção de pagamento para consumidores e empresas na América Latina. Particularmente para pequenas e médias empresas, que respondem por até 50% do volume de comércio na América Latina; muitos dos quais lutam para acessar o apoio internacional de bancos e instituições tradicionais. No entanto, o impacto socioeconômico mais amplo da criptografia não deve ser subestimado. Os planos do Banco Central para uma regulamentação formal e transparente são inevitáveis à medida que as transações em moeda não FIAT se tornam mais comuns. A isso, contanto que tal regulamentação proteja os usuários sem prejudicar as vantagens competitivas e práticas que os pagamentos criptográficos representam, pode ser considerado um passo positivo.

Acredito que as criptomoedas são muito mais do que apenas uma transação. A promessa do efeito “cripto-multiplicador” é que ele pode representar um impulsionador de crescimento e oportunidade em toda a região da América Latina que, de outra forma, pode permanecer como uma tendência latente.

George Paliani é chefe de Crescimento e Relações Públicas da CoinsPaid. É consultor de relações com investidores internacionais na área de blockchain, criptografia e negócios, palestrante internacional, além de fundador da Ambassador School.

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